domingo, 31 de janeiro de 2010

Poesia

Dias e noites
tangendo
em meus nervos
de harpa

vivo desta jóia
doentia do universo
e sofro
de não sabê-la
acender
na minha
palavra.



Giuseppe Ungaretti, tradução de Elson Fróes

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

"Foi um doloroso despertar. Por que as coisas eram tão erradas assim? As perguntas que eu me fazia desde menino um sem-número de vezes subiram novamente a meus lábios. "Por que todos nós somos oprimidos pelo dever de destruir tudo, mudar tudo, confiar tudo à impermanência? É a esse dever desagradável que o mundo chama vida? Ou sou eu o único para quem isso é um dever?" Pelo menos não havia dúvida de que eu era o único a considerar o dever como uma carga pesada.
Finalmente falei:

- Então, você vai embora...Mas claro que mesmo que ficasse aqui, eu teria que partir dentro de pouco tempo...
- Para onde você vai?
- Resolveram mandar-nos viver e trabalhar em alguma fábrica novamente, no começo deste mês ou em abril.
- Mas uma fábrica... Vai ser perigoso, com os ataques aéreos e tudo.
- Sim, vai ser perigoso - respondi desanimado.

Despedi-me tão rapidamente quanto possível..."




trecho do livro "Confissões de uma máscara", de Yukio Mishima.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010





via adalberto müeller

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


terça-feira, 29 de dezembro de 2009


o ar estava úmido: sentiu que iria chover. caminhava sobre a linha hipnótica do meio-fio. pensou em sua mãe. depois no enxame de abelhas que a atacou durante a infância. a mãe pusera-lhe argila nas ferroadas a fim de absorver o veneno. teve vontade de mergulhar para colher seixos, como fazia à época das abelhas - se bem que aquele rio gelado e cheio de galhos agora não parecia o mesmo. um relâmpago e começou a chover.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

não quero que shirley desapareça

Shirley é o tipo de pessoa especializada em perder aviões
algumas pessoas realmente nunca conseguem partir
tudo se transforma previsivelmente em desculpas
(sete doses de tequila
e um flerte com um argentino chamado Peco
não foram suficientes para impedir uma salsa
às cinco da manhã)
Embora Shirley não consiga permanecer por muito tempo
no mesmo lugar
é o tipo de pessoa que nunca consegue dizer adeus
seus olhos estão sempre fechados
sonhando com o dia em que possa simplesmente ficar
sem ressalvas.
Shirley bebeu dezenas de cervejas com sua amiga Rebeca
Rebeca acha que uma amizade se faz com muitos brindes
e eventuais pedidos de desculpas
principalmente após algumas doses de tequila
e um discurso fervoroso em defesa de Caio Fernando Abreu

amizade é algo como carregar uma bomba armada dentro do coração




luana vignon

terça-feira, 24 de novembro de 2009

.



mobiliando o silêncio
com aquários vazios

vê-se inexistente
uma cor na parede

o que se vê
é um pássaro com sede

de poleiro em poleiro
fazendo voar a gaiola



de novo, rodrigo de souza leão