segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

terça-feira, 16 de novembro de 2010

barulho de novela, barulho do datena: barulhos; não sons, mas barulhos e meu coração fazendo barulho de um jeito que só eu escutava, mas ela é mãe, a outra é irmã e entre os tostex eu pedi que parássemos com essa história de casa, de mudança, de corretores, eu estava cansada, eu tive insônia e eu estou em silêncio há muito tempo durante o jantar, então aquele barulho todo me fez chorar em cima do sanduíche (minha mãe é quem faz o pão). elas me olharam, passando a mostarda, perguntando ao mesmo tempo se eu queria maionese/por que eu estava chorando. respondi cheia de sinceridade: porque vocês estão aqui e há muito tempo eu não choro com alguém olhando. rimos.





fernanda d'umbra

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

ao longo de treze anos

minha ex-mulher guardou

folhas de árvores em meio

às páginas dos livros

que eu lia



eu nem percebia



desde então ao me deitar

e abrir um livro na cama

aquelas mesmas folhas caem

em meu rosto

tiram meu sono



à noite é sempre outono









joca

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

enquanto velo teu sono

Perception of an object costs
Precise de object’s loss.
Emily Dickinson

I
No silêncio da noite
em vigília de insônia
velo teu corpo
e o admiro
como ao copo translúcido
ao lado de tua cabeça.

II
Teu corpo deitado na cama
tem a mesma inquietude do copo,
a inquietude da água desse copo
pronta a derramar-se
como teus cabelos sobre o lençol;
a mesma inquietude
pela sede que evoca.

III
Um copo translúcido e calmo
que perturba o cristalino.
Um corpo de água
todo espraiado
entre os lençóis de água
de que é feito o branco da cama
a derramar em dobras dentro
dos limites do leito.


IV
Um corpo cheio até a boca
entre lençóis de água.

V
A cama
toda se alagando
entra por meus olhos cheios
do líquido que derramam
teus cabelos.






adalberto müller

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

segunda-feira, 5 de julho de 2010

o túnel

depois da nossa despedida, os motéis baratos ilhados à beira da estrada. os passageiros tagarelas, ironicamente sentados ao lado de passageiros ensimesmados, insistem em puxar conversa. a rodovia à noite é um túnel coberto umas vezes por copas de árvores, outras pela cúpula escura do céu, que nenhum farol alto alcança. na poltrona oito eu adormeço com meio dramin que imita a lua crescente.

terça-feira, 16 de março de 2010

Faustine

"Não espero nada. Isso não é horrível. Depois que assim decidi, ganhei tranquilidade. Mas essa mulher me deu esperanças.
Contempla o pôr-do-sol todas as tardes; escondido, eu a contemplo. Ontem, hoje novamente, descobri que minhas noites e meus dias esperam por essa hora. A mulher, com a sensualidade de uma cigana e com o seu lenço de cores demasiado grande, parece-me ridícula. Entretanto sinto, talvez um pouco de brincadeira, que se pudesse ser olhado um instante por ela, se me houvesse falado um instante, afluiria de uma só vez o socorro que o homem tem nos amigos, nas namoradas e nos que estão no seu próprio sangue."





trecho de "A Invenção de Morel", de Adolfo Bioy Casares