terça-feira, 23 de junho de 2009

Rói

Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes




Carlito Azevedo

terça-feira, 9 de junho de 2009

"É difícil observar no Brasil uma situação onde uma pessoa capaz de realizar bem alguma tarefa - tocar bem um instrumento, dançar, cantar, nadar, etc. - não demonstre um falso recato ao ser solicitada a fazer uma demonstração de suas qualidades. Há duas categorias chulas para tais atitudes compulsivas no Brasil, denominadas: "fazer chiqué de polaca", ou seja, proceder como uma prostituta polonesa fingindo ser uma virgem, ou, mais claramente, fazer "cu doce", expressão com o mesmo sentido que significa fazer-se difícil. O simbolismo sexual das duas expressões certamente mereceria maior atenção, mas pode-se sugerir que a equação subjacente ao simbolismo é aquela que denota uma visão negativa do feminino, pois só as mulheres necessariamente devem negar as coisas boas que podem realizar. Por outro lado, quem sempre se dispõe a fazer o que sabe na primeira solicitação é sempre classificado como "apresentado" e "oferecido".



nota de rodapé em Ensaios de Antropologia Estrutural - O carnaval como um Rito de Passagem, de Roberto da Matta.

quinta-feira, 21 de maio de 2009



"Tim Maia veio morar aqui na esquina de casa! Porra! E me ligava toda madrugada: "Filho da puta! Ouve o que é som, seu veado de merda, seu branco vendido!" Aí botava o "Descobridor dos sete mares" para eu ficar ouvindo. Desligava e 5 min depois ligava de novo: "Filho da puta, veado e punheteiro! Ouve o que é som". E botava "Azul da cor do mar". Chegava uma hora que eu tinha de parar de atender o telefone (risos). De vez em quando ele aparecia aqui no portão. Mas teve um dia que eu tentei enganar ele. Estava chegando de viagem, cansado pra caramba. Tocou o telefone. Atendi, percebi que era ele e fingi que era o meu filho. (Erasmo imita voz de criança): "Bicho, o meu pai não tá, ele tá viajando". E ele respondeu: "Vai tomar no cu, seu veado de merda, o filho do Erasmo não fala "bicho", fala "cara." (gargalhadas)".
.no blog do mário bortolotto.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Studio sulla grande allegria degli uomini di numeri


tanto cari
i sofà

ma ancora le sedie
a dondolo

sono tante parole
nel mondo tanto suono

non capisco perché
anche tante inferriate

sono triste
finchè passa

un corri corri
di bambini.

///

estudo sobre a grande alegria dos homens de números


tão queridos
os sofás

mais ainda as cadeiras
de balanço

é tanta palavra
no mundo tanto som

não entendo porque
tanta grade também

estou triste
até passar

uma correria
de crianças.




bruna beber em italiano, por rosella

terça-feira, 12 de maio de 2009

r.c.

os grandes colecionadores de mantras pessoais não saberão a metade/ do que aprendi nas canções/ é verdade/ nem saberão/ descrever com tanta precisão/ aquela janela da bolha de sabão/meu bem eu li a barsa/ eu li a britannica/ e quando sobrou tempo eu ouvi/ a sinfônica/ eu cresci/ sobrevivi/ a privada de perto/ muitas vezes eu vi/ mas a verdade é que/quase tudo aprendi/ ouvindo as canções do rádio/ as canções do rádio/quando meu bem nem/ a verdadeira maionese/ puder me salvar/ você sabe onde me encontrar/e se a luz faltar/ num cantinho do meu quarto/ eu vou estar/com um panasonic quatro pilhas AAA/ ouvindo as canções do rádio



angélica freitas

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Gramaticais - V

(Mas nada disso faz sentido,
porque é concreto, é existente.
Só significa o construído,
o que é postiço e excedente.

E quanto ao mundo - o que independe
dos artefatos, o que é dado
a todos e ninguém entende -
o mundo vai bem, obrigado,

e não quer dizer coisa alguma.
Porém o jogo continua,
como sempre, é claro - talvez

um pouco mais seco, mais duro,
sim, um pouco mais inseguro.)
Pronto - Agora é a sua vez.





em Tardes de Paulo Henriques Britto

quinta-feira, 30 de abril de 2009

notas para um livro bonito

espíritos de
poetas simbolistas se movimentam
nas garagens dos prédios e
corredores de hospitais
em madrugadas de gelo.
é produto de zonas sombrias
recônditas
o silêncio que tememos.
estamos desprotegidos
mesmo no lado dentro.
sabemos que a carcaça que envolve
certamente é forte
mas os órgãos
facilmente poderão
ser esmagados igual frutas.





luis felipe leprevost,
no blog da luana vignon.