quinta-feira, 21 de maio de 2009



"Tim Maia veio morar aqui na esquina de casa! Porra! E me ligava toda madrugada: "Filho da puta! Ouve o que é som, seu veado de merda, seu branco vendido!" Aí botava o "Descobridor dos sete mares" para eu ficar ouvindo. Desligava e 5 min depois ligava de novo: "Filho da puta, veado e punheteiro! Ouve o que é som". E botava "Azul da cor do mar". Chegava uma hora que eu tinha de parar de atender o telefone (risos). De vez em quando ele aparecia aqui no portão. Mas teve um dia que eu tentei enganar ele. Estava chegando de viagem, cansado pra caramba. Tocou o telefone. Atendi, percebi que era ele e fingi que era o meu filho. (Erasmo imita voz de criança): "Bicho, o meu pai não tá, ele tá viajando". E ele respondeu: "Vai tomar no cu, seu veado de merda, o filho do Erasmo não fala "bicho", fala "cara." (gargalhadas)".
.no blog do mário bortolotto.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Studio sulla grande allegria degli uomini di numeri


tanto cari
i sofà

ma ancora le sedie
a dondolo

sono tante parole
nel mondo tanto suono

non capisco perché
anche tante inferriate

sono triste
finchè passa

un corri corri
di bambini.

///

estudo sobre a grande alegria dos homens de números


tão queridos
os sofás

mais ainda as cadeiras
de balanço

é tanta palavra
no mundo tanto som

não entendo porque
tanta grade também

estou triste
até passar

uma correria
de crianças.




bruna beber em italiano, por rosella

terça-feira, 12 de maio de 2009

r.c.

os grandes colecionadores de mantras pessoais não saberão a metade/ do que aprendi nas canções/ é verdade/ nem saberão/ descrever com tanta precisão/ aquela janela da bolha de sabão/meu bem eu li a barsa/ eu li a britannica/ e quando sobrou tempo eu ouvi/ a sinfônica/ eu cresci/ sobrevivi/ a privada de perto/ muitas vezes eu vi/ mas a verdade é que/quase tudo aprendi/ ouvindo as canções do rádio/ as canções do rádio/quando meu bem nem/ a verdadeira maionese/ puder me salvar/ você sabe onde me encontrar/e se a luz faltar/ num cantinho do meu quarto/ eu vou estar/com um panasonic quatro pilhas AAA/ ouvindo as canções do rádio



angélica freitas

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Gramaticais - V

(Mas nada disso faz sentido,
porque é concreto, é existente.
Só significa o construído,
o que é postiço e excedente.

E quanto ao mundo - o que independe
dos artefatos, o que é dado
a todos e ninguém entende -
o mundo vai bem, obrigado,

e não quer dizer coisa alguma.
Porém o jogo continua,
como sempre, é claro - talvez

um pouco mais seco, mais duro,
sim, um pouco mais inseguro.)
Pronto - Agora é a sua vez.





em Tardes de Paulo Henriques Britto

quinta-feira, 30 de abril de 2009

notas para um livro bonito

espíritos de
poetas simbolistas se movimentam
nas garagens dos prédios e
corredores de hospitais
em madrugadas de gelo.
é produto de zonas sombrias
recônditas
o silêncio que tememos.
estamos desprotegidos
mesmo no lado dentro.
sabemos que a carcaça que envolve
certamente é forte
mas os órgãos
facilmente poderão
ser esmagados igual frutas.





luis felipe leprevost,
no blog da luana vignon.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O que é que falam, as pessoas que falam sozinhas
na fila do Poupa-Tempo?
O que cantam, as pessoas com seus mp3 players,
caminhando na Estação da Luz
às escuras?
O que elas procuram?
Enquanto os leds dos painéis pingam senhas vagarosamente,
dona Luzia pergunta-se em voz alta quanto tempo poupará,
esperando uma hora e meia na fila.
O que dona Luzia poderá fazer com seu tempo poupado,
ver o programa do Ratinho?
Ajudar seu pastor na coleta da igreja?
Perguntas lançadas ao ar-condicionado permanecem sem respostas.
Dona Luzia folheia a “Harpa Cristã”, onde encontra alento, mas também
os telefones de suas filhas anotados nas páginas em branco.
Nada mais está em branco agora.
Quais são as respostas que nem mesmo o gordinho simpático sentado
debaixo da placa “Informações” pode nos dar?
Nada mais está em branco agora, tudo está
preenchido com perguntas.
São perguntas pretas que surgem nas cabeças das pessoas
brancas e perguntas brancas pintando nas
cabeças das pessoas pretas.
Os PMs perguntam tudo a todos apenas com o olhar,
eles têm esse direito que, igualmente, os exime de respostas.
Um policial não sabe responder nada, a não ser apontar
a direção a seguir sem mesmo conhecer o norte nos mapas.
Todas estas pessoas buscam respostas vazias
cheias de números que nada significam.
Deus é apenas uma palavra em branco e preto
cerzida no tricô que dona Luzia
acaba de terminar.
O registro geral tem 9 números, assim como a data de meu
aniversário é dia 9, mas nenhum deles
– os números ou os dias –
registram a nossa dor.
Eu publiquei 6 livros e nenhum deles
consta em meu atestado de antecedentes criminais,
o que indica haver algo errado com a Justiça
ou com a Poesia.
Lá fora o sol saiu, derretendo a bruma, e a tarde
chegou ao seu ponto final no mesmo tempo
em que a senha de dona Luzia foi chamada.
Nada mais vai nos redimir, nem mesmo o sol tardio
ou a loteria federal.
A vida pode ser só isto, perder a vez
quando o painel te chama e você não vê
porque escreve um poema.





do joca